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Deus Castiga? - .:: Biblioteca Virtual Espíritabvespirita.com/Deus Castiga! (psicografia Manuel...

Date post: 14-Nov-2018
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Author: builien
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  • Deus Castiga? (Caiibar Schutel responde)

    INDICE Falemos de Cairbar ........................................... 7 Dor e castigo ...................................................... 11

    Preparo prece ................................................. 19

    Interferncia de obsessores ......................... 29

    O valor da orientao ...................................... 37

    Tarefas definidas ............................................. 44

    Defesa por meio do Evangelho ....................... 53

    Dificuldades do iniciante da caridade .......... 70

    Insegurana atual ............................................. 81

    Aprendizado celeste ...................................... 94

    Espirita: mediador da paz 107

    Falemos de Cairbar Houve um momento (felizJ) do encontro de Cairbar Schutel com a Doutrina Esprita.

    No verdade que a Espiritualidade Maior se incumbe de todos esses pormenores? Manuel Calixto, mdium de recursos incomuns, criatura boa, despertou no amigo a

    curiosidade intelectual que era o seu desejo irresistvel. Repetiam, aqui no Brasil, fatos idnticos queles relatados em publicaes de carter

    sensacionalista, vindos da Frana. A mensagem recebida pelo companheiro, naquela primeira pesquisa do Alm,

    trouxe-lhe, indiretamente, o convite inadivel para que dedicasse toda a sua existncia Doutrina da esperana e da consolao.

    Desse evento resultou a avalancha de sucessos, pois a vida de Cairbar Schutel uma construo ininterrupta, uma doao perptua causa do prximo e dos postulados kardecistas.

    Com 36 anos, j era ele grande defensor da Doutrina, havendo fundado, em 1904, o primeiro Centro Esprita de Mato, que recebeu o nome de Centro Esprita Amantes da Pobreza. Um ano depois, surgia o jornal O Clarim, que circula at hoje, trazendo em suas pginas, como uma vibrao indefinvel, a coragem e o incentivo de seu fundador.

    Bravura e perseverana foram constantes em sua existncia. Durante a luta pela implantao doutrinria, inmeros foram os exemplos que reforam esta afirmao.

    Uma amiga, um dia desses, contou-me: - Cairbar era de minha terra. Mato. - Sim?

  • Eu me lembro bem. Minhas irms e eu no passvamos nem na mesma calada que ele. A gente desviava e, em vez de passar na frente de sua casa, dava a volta pelo outro quarteiro.

    - Por qu? - O padre proibia... - Ah, ento voc se recorda disso?... Cairbar- como sempre acontece quando algum quer produzir algo de carter

    redentorial e superior- tambm sofreu perseguies violentas da parte de um vigrio que, a todo custo, queria ver fechado o Centro Esprita, recm-fundado. No satisfeito em combater o apstolo, esforava-se tambm por derrubar o profissional, proibindo os fieis de sua parquia de frequentarem a farmcia, onde mais fazia caridade do que propriamente comrcio.

    Muita coisa sucedeu ensejada pela intolerncia desse pobre irmo religioso, fazendo de Deus uma imagem pequenina como a de si prprio. Como se Ele no pudesse dar-se a todos!...

    Passeatas foram organizadas, campanhas difamatrias, ataques dissimulados e outros diretos. A tudo reagiu serena e inteligentemente a figura nobre e agigantada de Cairbar. Jamais sua pena brilhante interrompeu o fluxo de ensinamentos evanglico-kardecistas, e houve sempre um pronunciamento veemente, na hora adequada. Para tanto, fundou, a 2 de fevereiro de 1925, a Revista Internacional de Espiritismo, que abordava assuntos relacionados com a metapsquica e com o ngulo cientifico da Doutrina dos Espritos.

    Dessa fonte ininterrupta de divulgao, legou-nos um acervo de valor em suas obras publicadas valentemente em oficinas suas - a Casa Editora O Clarim, comandada pelo prprio mestre Schutel, outra de suas incontveis vitrias.

    Nessa empresa foram publicadas, ao longo dos anos de labor fecundo, inmeras obras que persistem sendo reeditadas, graas lgica e atualidade de seus temas. So elas: Espiritismo e Protestantismo; Histria e Fenmenos psquicos; O Diabo e a Igreja;

    Mdium e Mediunidade; Gneses da alma; Materialismo e Espiritismo; Fatos

    Espritas e as foras X; Parbolas e ensaios de Jesus; O Esprito do Cristianismo;

    A vida no outro mundo; Vida e atos dos apstolos; Conferncias radiofnicas;

    Cartas a esmo; Interpretao sinttica do Apocalipse.

    Alm dos escritos, a divulgao pela Rdio de Araraquara (PRD-4 j, no ano de 1936, de suas famosas conferncias radiofnicas, que hoje se encontram reunidas num volume especial

    Jornalista correspondente dos jornais Correio Paulistano e A Plateia, rgos de destaque poca, na capital do Estado, houve outro ngulo em que brilhou sua nobre alma.

    De fato. Uma obra existencial, na sua totalidade, s encontra culminncia, realmente, se enfeixa em seu pice exemplos de fraternidade e dedicao ao prximo. o amor, que sempre fala mais alto que todas as outras coisas.

    A vida de Cairbar foi um desfilar constante desses atos. Embora sem formao acadmica, possua um domnio muito grande dos conhecimentos farmacuticos que, a

  • servio de uma intuio quase perfeita, qfereciam-lhe condies de se constituir em socorrista dos pobrezinhos da regio toda. Recebia os doentes em sua casa, auxiliado pela esposa dedicada, dona Mariquinhas, dando-lhes assistncia e remdios. Depois, como o nmero de infelizes crescesse a cada novo dia, alugou uma casa mais ampla, com o objetivo expresso de melhor servir, gratuitamente, aos irmos doentes e sem recursos.

    Foi essa faceta brilhante de servidor humilde que acabou por transformar em amigos mesmo aqueles que mais o combateram. Conta-se que, ao ser enviado para uma outra parquia, o padre que tanto o perseguira apresentou-se ao ex-desafeto para o abrao de despedida. E, no encontro dos coraes, tudo foi esquecido em nome do nico sentimento que deve, de fato, ser levado em conta em nossas existncias.

    Nesta obra, os leitores podero constatar que o mestre Cairbar Schutel continua o mesmo devotado servidor da boa causa doutrinria. Helena Maurcio Craveiro Carvalho

    Captulo 1 DOR E CASTIGO Mas o que semeia para o esprito, do Espirito colher vida eterna. Paulo (Glatas, 6:8)

    - H pouco, Samuel, voc dizia que Deus no castiga, e que isso de dizer

    castigo de Deus blasfmia.

    - Acima de tudo, Marcos, desconhecimento do assunto.

    - Mas...

    - Sim, entendo sua dvida. H momentos, de fato, em que uma anlise

    superficial nos leva a esta deduo.

    - E ento?

    - Eu disse: anlise superficial.

    - Como?

    - Se atentarmos para o fato de que Deus Fora Criadora, Fonte

    Inesgotvel de amor, como imagin-Lo, momentaneamente, transformado numa

    figura humana grave e austera, franzindo o sobrecenho e arregaando as mangas

    para dar-nos boas palmadas?

    - Tem razo. Mas de que maneira explicaria, ento, essas desgraas que

    se abatem frequentemente sobre o ser humano, seno como um castigo bem

    aplicado?

    - Espere. Chegaremos a esse ponto, Marcos. Como dizia, absurdo

    deduzir que os males que tombam sobre as criaturas so enviados diretamente

    pelo Pai, que nos deseja castigar a todo custo. Ento, voc imagina que Deus

    poderia deixar de ser o pensamento puro que , para vingar-se de ateus, castigar

    os maus, transformar-se em instrumento mediador daqueles que, ignorantes e

    infelizes, profetizam: Deixa estar. A Justia Divina tarda mas no falha, diante

    de procedimentos alheios incorretos?

    - E... realmente. Mas e as desgraas de que lhe falei? Como ficamos, caro

  • Samuel?

    - Imagino que podemos encarar os males que atingem os seres humanos

    sob trs aspectos. O primeiro deles corresponde aos produzidos por acidentes,

    frutos de um despreparo vibratrio.

    - No entendi.

    : - E fcil. Voc nota como, dia a dia, amplia-se o quociente dos desastres, dos

    suicdios, das agresses, dos crimes?

    - Poderamos qualificar os crimes e os suicdios como acidentes,

    Samuel?

    - Sim, podemos. Porque, a rigor, ningum traz como programa a agresso a

    quem quer que seja, tampouco a autodestruio. Isso pode ocorrer se a pessoa se

    degrada, momentaneamente, em termos vibratrios.

    - Qual a causa dessa degenerao?

    - Existe verdadeira nuvem negra a envolver a face da Terra. Poucos so

    aqueles que conseguem passar inclumes, debaixo desse perigo constante. Todo

    ser humano tem a seu dispor, como ameaa e como reforo (segundo as intenes

    de cada um), uma legio de espritos inferiores, autnticos desatinados, prontos

    para atac-lo sob qualquer aspecto e a qualquer momento.

    - E no nos podemos livrar?

    - Claro que sim. Orai e vigiai, disse-nos o Mestre.

    - Todavia, caro Samuel, basta um descuido e... pronto! L se est rolando

    por uma escada ou caindo debaixo de um carro.

    - Voc diz bem. Basta um descuido. Porm, os espiritas j conhecem o

    processo exato de manuteno do equilbrio.

    - Como ?

    - Orando e estabelecendo ligao constante com as altas esferas.

    - De que maneira se faz isso?

    - Depois, amigo. Deixe-me continuar para no perdermos o fio...

    - Ah... sim! A questo do castigo, Samuel.

    - Exato.

    - Voc falou sobre o primeiro aspecto...

    - ...dos males que nos rondam.

    - E o segundo?

    - Trata-se do mal necessrio, do mau despertamento.

    - Que histria essa?

    -E simples, Marcos. O homem acomoda-se com grande facilidade. Quando tudo

    vai bem...

    - Ele s pensa em gozar a vida...

    - E o resto no interessa.Voc bem o sabe. Contudo, todos ns temos

    compromissos de ordem moral e espiritual assumidos do lado de l, quando ainda

    no preparo da atual encarnao.

  • - No entanto, no nos lembramos deles, no ?

    - O nosso comodismo aumenta essa falta de memria.

    - E a dor?

    - Sim, esta nos tira do ritmo indolente a que estamos entregues e nos d uma...

    como direi?

    - Sacudidela.

    - Isso! O termo foi bem escolhido. Quando atacado por alguma doena fsica,

    mental ou psquica, o homem procura imediatamente uma justificativa de seus

    sofrimentos e, para tanto, busca ligar-se ao plano espiritual por meio da prece,

    alm de, subitamente alertado para o efmero da vida, buscar os fundamentos de

    uma lgica superior, que o premia negativamente por meio da desgraa. Faz-se

    ento religioso, corre em busca de socorro celestial, compenetra-se da

    necessidade de uma auto-observao, de uma reavaliao dos valores

    anteriormente relegados a um nvel secundrio.

    - Em suma: fica bonzinho.

    - Pelo menos, Marcos, abranda sua orgulhosa auto- suficincia, percebe que

    no pode se sentir assim to seguro porque, a rigor, ele no passa de um gro de

    poeira ao sopro das contingncias.

    - Entendido. Este segundo tipo funcionaria como as sinetas que avisam o incio

    das aulas. Quanto mais preguioso o aluno, maior necessidade ter desses

    chamamentos...

    - ...que diminuiro em intensidade e frequncia, medida que o homem se

    conscientizar de seus verdadeiros deveres, procurando atender aos compromissos

    assumidos.

    - E o terceiro?

    - Procure voc mesmo deduzir qual .

    - Deixe-me ver... quem sabe... poderia ser o mal que costumam chamar de...

    crmico?

    - Bravo! Realmente, o mal crmico o terceiro de nossa lista. Est se

    revelando um grande aprendiz.

    - Alto l! Que no seja aprendiz de feiticeiro.

    - Tomara, meu caro Marcos, que esse feitio, como voc jocosamente chama

    a nossa abenoada Doutrina, possa espalhar-se rapidamente por toda a face da

    Terra!

    - Mas... sem crendices nem supersties!

    - Claro. Voc percebe que o nosso esforo atual grandemente dirigido nesse

    sentido: o de livrar a Doutrina desses sincretismos com que aparece

    frequentemente mesclada, no parco entendimento popular?

    - Vai ser difcil, contudo, Samuel.

    - Entretanto, um esforo que precisa ser incrementado, condio

    indispensvel para que a Doutrina se mantenha no alto nvel em que deve

  • permanecer.

    - Estamos desviando do assunto, amigo.

    - Tem razo. Voltemos ao problema da dor. Este o aspecto mais importante e

    que poder (se eu conseguir me expressar com a necessria clareza de

    raciocnio)...

    - Claro que sim!

    - Obrigado. Poder - dizia eu - levar-nos a compreender a iseno do Poder

    Criador no processo de pequenas questes yivenciais em que insensatamente nos

    envolvemos.

    - Vamos l, Samuel.

    - Temos de partir da noo fundamental de que, se Deus Criador, tambm

    Legislador.

    - Porque atravs das leis...

    - ...d-se o bom andamento de tudo. Estas leis, pois, regulamentam as foras

    em jogo no processo vital. Uma das mais importantes est fundamentada no

    princpio de causa e efeito.

    - J sei: O que semeardes, colhereis.

    - Perfeito, Marcos. Assim, as doenas, os defeitos fsicos ou mentais que

    trazemos ao nascer, constituem a colheita do mal plantado por ns em encarnaes

    anteriores.

    - Que maravilha! E lembrar que os materialistas costumam se servir desses

    mesmos exemplos para tentar provar a inexistncia de Deus, pelo menos como

    fora criadora onipotente e perfeita, apontando Sua falibilidade no que tange

    justia.

    - Justifica-se que assim o deduzam, Marcos, uma vez que no aceitam a teoria

    reencarnacionista.

    - Sabe... muitas vezes, tambm eu... via criancinhas deformadas, dbeis, com

    molstias terrveis, e me revoltava.

    - Pois , amigo. Agora, j sabe que o esprito velhssimo.

    - E, frequentemente, tambm velhaco!

    - mestre nos trocadilhos, heim?

    - Desculpe-me. brincadeira, no resisto.

    - Faz bem. O sense of humor ou o esprit, como queira cham-lo, deve estar

    presente em toda conversao. Cada vez mais, porm, a anedota vai substituindo

    esse campeo jocoso da intelectualidade e, portanto...

    - Mediocrizando o padro do dilogo.

    - Certo, amigo.

    - Mas... com referncia causa e efeito?

    I - O terceiro aspecto da dor, pois, envolve esse problema da volta do mal

    lanado no mundo pelos maus semeadores, que fatalmente iro recolh-lo.

    - Explique-se melhor.

  • - Pois no. Conhece ou j ouviu falar daquela arma usada pelos australianos?

    - O bumerangue? Sim. Quando lanado, descreve uma curva e volta ao ponto

    de partida.

    - Pois o homem, semelhana do atirador de bumerangue, aps lanar o mal ao

    seu redor, tambm o receber de retorno.

    - Com ou sem demora?

    - Sim, Marcos, nesta ou em outra encarnao.

    - O mal liberado no mundo concorre para o seu desequilbrio. O homem,

    responsvel por esse desencadeamento progressivo de negativismo, ter de

    reabsorve-lo, a fim de reequilibr-lo.

    - Voc disse desencadeamento?

    - Sim. Basta que uma pea seja desviada de seu encaixe para que outras

    tambm se desarticulem. E a esse fenmeno desagregador que me refiro.

    - Espere, espere. Devagar, Samuel. Estou encantado. Como mesmo?

    - Com efeito, estamos tratando de um assunto maravilhoso, de fato.

    - Explique-me novamente: o mal provoca desequilbrio?

    - Sim, porque a ordem o amor.

    - Exato, o amor que constri, enquanto...

    - ...o dio destri, meu amigo. Como v, so poder existir o bem onde existir o

    amor. Todos temos o dever de trabalhar para nosso progresso espiritual,

    auxiliando-nos mutuamente.

    - E essa ajuda recproca fruto do amor?

    - Certamente. E mantm o equilbrio, a ordem, a paz. Quando algum

    transgride essas normas, provoca uma revoluo.

    - No poderamos dizer uma convulso?

    - Tambm. Uma convulso verdadeira entre as foras que regem a vida no

    planeta e que tendem a repelir esse elemento estranho.

    - No caso, o mal.

    - Sim. Tendem a repelir essa fora estranha e desagre- gadora, mandando-a

    de volta origem: eis de onde vm nossas dores crmicas, nossos reveses, nossas

    frustraes, nossas fixaes conscienciais.

    - De ns mesmos, ento!

    - Nota dez, meu caro. Como se percebe, somos nossos prprios algozes. Por

    qual motivo, ento, atirar sobre Deus a pecha de castigador?

    - O Autor das leis...

    - Sim, o Legislador.

    - E no h um modo de nos livrarmos da devoluo?

    - H sim, mas exige um esforo, primeiro individual, depois coletivo.

    O comum que o praticante do mal encontre tambm algum que lhe prepare

    ciladas, mais tarde, parecidas com aquelas que ele prprio j tramou a outro

    desafeto qualquer.

  • - No est certo, Samuel. Isso foge lgica e justia. Ento, este segundo

    personagem, que age praticamente como vingador, tem necessidade de pecar?

    - Absolutamente, Marcos. Ningum traz - e j o dissemos - misso negativa.

    Porm, como o mal no cessa de ser praticado, bvio que, de acordo com essa lei

    especfica, quem vai receber o desequilbrio recentemente desencadeado pelo

    novo pecador ser aquele que um dia o provocou, nesta ou noutra existncia.

    - Deduzo que a coisa fica num crculo vicioso, ento.

    - Por enquanto, meu caro, poder parecer realmente um processo sem

    soluo, em que cada volta j significa em si um novo comeo. Todavia, os

    esforos dos homens de bem, devidamente assessorados pelo Plano Espiritual

    Superior, endeream-se no sentido de que o amor fraterno seja, daqui para a

    frente, a mola propulsora de influxos positivos que, conforme avanam em volume

    e em quantidade de emissores, iro anulando a virulncia de retorno do mal.

    - Ento foi isso que quis afirmar quando lhe perguntei se no haveria algum

    modo de o ser humano evitar essa volta.

    - Voc conhece o Evangelho, no?

    - Esforo-me para tal. Melhor dizendo, leio constantemente O Evangelho segundo o Espiritismo.

    - E l encontra uma passagem na qual Pedro assevera que apenas a caridade,

    expresso mxima do amor, tem o poder de anular a multido de nossos pecados.

    - Realmente.

    - Isso confirma, em grau bem mais incisivo, o que lhe acabo de explicar.

    Captulo 2 PREPARO PRECE

    "Diariamente, semeamos e colhemos. A uida tambm um solo que recebe e produz eternamente."

    Andr Luiz - Enquanto esperamos nosso ch, Samuel, voltemos questo do outro dia,

    quando me falava sobre a necessidade de nos mantermos em ligao constante com

    o Plano Superior.

    i- Ah, sim. Trata-se de algo importantssimo, sabe? Todo ser humano

    necessitaria conhecer esses processos- corno poderia dizer?

    - De defesa?

    - Exatamente, defesa. Em ltima anlise, isso mesmo. Principalmente nos

    tempos atuais. Voc percebe o grau de perturbao em que est mergulhado o

    planeta?

    - E cada vez maior. No damos dois passos sem nos deparar com algum

    arrebentado ou morto, sofrendo ou cometendo algum ato de selvageria.

    - E a agressividade, Marcos. J reparou como as pessoas nos olham com dio,

  • como se ns, a quem jamais viram, fssemos os responsveis diretos pela angstia

    e desespero que as vitimam?

    - Claro que reparo, sempre. E sabe que esse fato me irrita? No me conformo.

    Afinal, tenho me esforado por me fazer fraterno. Procuro sorrir s criaturas,

    dar-lhes passagem, prestar-lhes algum servio. E o que acontece?

    - O mesmo que para mim. Voc v os cidados entreolharem-se assustados,

    perguntando-se mudamente se somos conhecidos de algum deles...

    - E no o sendo...

    - Julgam-nos loucos.

    - No sei se me irrito ou se dou risada.

    - E, caro Marcos. A coisa assumiria aspecto verdadeiramente cmico, no

    fosse o estado calamitoso em que se coloca a humanidade sofredora, atualmente, o

    que nos obriga a arregaar as mangas, tentando algum meio para minorar seu

    sofrimento.

    - Pois justamente sobre esse ponto que desejo ouvir sua opinio. Como que

    ns poderamos nos precaver contra acidentes e esses perigos todos? Voc me

    disse que os espritas conhecem os meios para se manter sob resguardo.

    - De fato. Ns conhecemos o mecanismo para obteno de uma boa

    cobertura. No entanto, poucos so os que, efetivamente, conseguem-no. E sabe o

    motivo?

    - No.

    - Porque, alm da tcnica correta, para alcanar a ligao necessria e

    constante do Plano Superior, faz-se necessrio tambm um esforo muito grande

    no sentido de melhoria interna. Alis, esse esforo condio indispensvel para o

    bom xito dessa tcnica. E uso este termo apenas por uma questo (como direi?)

    de didtica.

    - Magistral!

    - Perdoe-me, Marcos, no quero parecer pretensioso.

    - Ora, que ideia. Continue!

    - A reforma interior imprescindvel, como v muito bem. No se pode

    pretender um acompanhamento espiritual benvolo e protetor, se no se tem

    moral elevada. Pelo menos e necessrio existir um esforo srio no sentido de

    adquiri-la.

    - Seriam esses os chamados homens de boa vontade, Samuel?

    - Claro, uma vez que a natureza humana muito imperfeita e exige, para

    corrigir-se, uma enorme luta, sempre louvvel e conquistadora de mritos, no plano

    da espiritualidade. Como dizia, no se pode pretender um acompanhamento digno

    se no se tem, por exemplo, muita calma.

    - Ah! E calma, nesse trnsito...

    - Voc , de fato, uma criatura de excelente estado de esprito. Quem est ao

    seu lado est constantemente melhorando o humor.

  • - Graas a Deus. Isso nos ajuda a manter a calma?

    - E evidente, Marcos. O bom humor uma conquista preciosa. Com isso,

    lembrei-me agora de um de nossos expositores - por sinal, um inspiradssimo

    orador! Constantemente, ele nos lembra da necessidade de cultivarmos a alegria,

    de sorrirmos com frequncia, afastarmo-nos das tristezas, limpando nossos

    coraes de mgoas e ressentimentos, para pretendermos gozar da companhia de

    espritos elevados. J imaginaram um de ns tentando aproximar-se das altas

    esferas assim carrancudos, sobrecenho carregado? J pensaram no absurdo? -

    perguntava ele.

    - Parece-me realmente ridculo.

    - Ento, como percebe, necessrio mantermo-nos rigorosamente isentos,

    apesar das convulses que nos rodeiam. Reparou nos ltimos exemplos de

    catstrofes, de desastres coletivos, em que poucos conseguem salvar-se, e

    justamente estes so sempre os que se conservam tranquilos, apesar do pnico

    geral?

    - Creio que sim.

    - E necessrio atentar para este detalhe importantssimo, Marcos: no que

    os Espritos Superiores no se esforcem por auxiliar a todos.

    - Bem, ento por qu?

    - Os nossos amigos espirituais, conquanto o desejem profundamente, ficam

    impossibilitados de se aproximarem de ns, conforme a vibrao que nos circunda,

    por nossa prpria responsabilidade como emissores.

    - Explique melhor, pois acho um tanto complicado.

    - No. No . Ver de que se trata. Conhece j a natureza da matria

    extremamente sutil de que composto nosso corpo perispiritual, no?

    - Sim, e esse corpo...fiz - ... to rarefeito e leve quanto maior elevao tiver o esprito. Agora

    (utilizando-me de um exemplo grosseiro), imagine-se precisando, voc prprio,

    descer a um fosso profundo, onde h gases letais, para salvar algum que lhe pede

    socorro.

    - Morro. Mas se quer se referir aos espritos, eles j no podem morrer.

    - Olha a o brincalho de sempre!

    - Desculpe-me, amigo, no resisto.

    - Tambm no consigo explicar melhor. Deixe ver... ah, sim! Suponhamos que

    voc esteja doente, necessitado de medicamentos urgentes. Vai farmcia e pede

    ao farmacutico para aplicar-lhe uma injeo. O profissional prepara a seringa,

    mas, ao procurar o msculo adequado, v-se impossibilitado de faz-lo, porque em

    lugar de um terno, facilmente removvel, voc veste uma armadura de cavaleiro,

    como as usadas na poca medieval.

    - Que bela figura voc me arranjou!

    - No arrumei outra. Mas preste ateno, meu querido: percebe, nesse

  • exemplo, a presena de todos os elementos que existem tambm no fato que

    desejamos analisar? H algum que precisa de socorro, h outro que pretende

    assisti-lo, preparando-se para faz-lo. Por fim, h tambm a ao de assistncia

    impedida, por impossibilidade de aproximao do elemento socorrista.

    - Excelente, Samuel, voc notvel!

    - No brinque, malandrinho!

    - Ento...?

    - Os espritos evoludos, embora se esforcem por chegar at ns em horas de

    necessidade, como para evitar acidentes graves, discusses, ataques de terceiros

    e tantos outros perigos a que estamos expostos diariamente, no o podero fazer,

    a menos que ns lhes facultemos a ao pondo-nos tambm no mesmo campo

    vibratrio deles, isto , abrindo caminho. Se assim no se proceder, ser como

    pretender que uma leve e tenra pena de pssaro consiga penetrar numa caixa de

    ao hermeticamente fechada. Nossa vibrao animalizada e grosseira nos fecha

    em caixas vibratrias inatingveis pelos espritos bons. E, depois, abrimos a boca

    no mundo, lamentando-nos de que Deus nos esqueceu!

    - No fim, Samuel, a base do bem viver mesmo o conhecimento.

    - Complete, Marcos... o conhecimento como um meio para atingirmos os

    estgios superiores, dentro dos quais iremos nos tornar criaturas felizes.

    - Muito bem. Compreendi o fenmeno em si, mas voc no me ensinou a

    livrar-me da caixa.

    - Esquea essa histria de caixa. Foi apenas um exemplo, muito mal posto alis,

    de que me vali para tentar a elucidao de um fato frequentssimo - e poderia

    dizer, mesmo -, de ocorrncia permanente dentro dessa atmosfera terrvel em

    que vivemos mergulhados.

    - Pode-se agora deduzir que o caminho apontado para se conseguir uma

    constante ligao com o Plano Superior seja a prece, no?

    - Ah, sim. Entretanto, veja bem: a prece como ao inicial de um processo

    complexo de desvinculao, desse apego excessivo do ser humano s contingncias

    materiais.

    - Mas...

    - Sim, eu sei o que voc haver de objetar: e o trabalho, a luta econmica, o

    investimento?

    - Exatamente.

    A que reside a necessidade do equilbrio, meu caro. O homem, de fato,

    necessita devotar-se ao trabalho rendoso, visando ao progresso material,

    cuidando das reservas econmicas para a famlia, enfim, cumprindo seu dever como

    cidado operante e como provedor dos seus dependentes. Todavia, so necessrias

    as pausas dirias para descarregamento da tenso que o trabalho material

    estafante costuma gerar.

    E se no dermos importncia a isso?

  • O excesso de presso nos levar ao desequilbrio, em geral, com funestas

    consequncias.

    E a prece?

    Ser o primeiro passo, como disse, dessa operao purificadora que

    libertar o cidado de uma subordinao excessiva para com a vida material, que

    se no for suficientemente dosada...

    A subordinao?

    Sim. E preciso limit-la s nossas necessidades. Como dizia, se a luta

    pelos bens materiais no for encarada apenas como um meio, mas, ao contrrio,

    transformada num fim em si mesma, liquidar rapidamente aquele que se faz

    quase suicida.

    Ah! E isso representa praticamente a totalidade, Samuel. A maioria das

    pessoas faz da corrida em busca do dinheiro o objetivo nico e primordial da

    vida.

    Sim, contudo, preciso lembrarmo-nos de que, se qualquer um faz isso

    sem grandes responsabilidades, o mesmo no se pode dizer do esprita. Este j

    sabe que no pode exagerar essa conduta, pois tem obrigao de dar uma boa

    parte de seu tempo aos trabalhos de cunho espiritual, trabalhando no terreno

    verdadeiramente prolfero da Seara do Senhor.

    E que fazer se passar dificuldades?

    No passar, pois o plano espiritual estar sempre atento s suas

    necessidades. Desde que haja equilbrio por parte do interessado, no sentido de

    dividir suas horas de maneira equitativa, reservando um razovel tempo para

    suas tarefas espirituais, enquanto se dedica, nas restantes, ao trabalho

    material para obteno de proventos justos, ele estar mais do que habilitado

    a levar vida bastante tranquila. E ningum se assuste se esses mesmos, que

    procuram tal equilbrio, aparecerem com ddivas at aparentemente excessivas,

    advindas por acrscimo da incomensurvel Misericrdia Divina.

    - Voc falava da prece. Como deve ser feita?

    - Exige um certo preparo, como voce ja sabe.

    - No... tambm acho difcil. Explique-me.

    - O desconhecimento desses cuidados leva, frequen- temente, s queixas

    inmeros irmos nossos. Supem que basta a repetio maquinal dos esteretipos

    tradicionais e est feito o exorcismo.

    - Imaginam que, a partir da, haver uma dzia de anjos guardando-lhes as

    costas.

    - No mesmo? Essa deduo ingnua muito perigosa, Marcos.

    - Por qu?

    - Com essa viso falsa das coisas, o cidado se toma ainda mais descuidado. E a

    sua displicncia poder custar- lhe muito caro.

    - Voltando ao assunto...

  • - Tem razo. Estou desviando a todo instante. Pois bem. Recomenda-se, de

    preferncia, a orao em hora certa.

    - Para qu?

    - Para contarmos com a assistncia constante de nossos mentores. De qualquer

    forma, meu amigo, antes de iniciarmos a prece propriamente dita, com ou sem hora

    marcada, faz-se necessria uma prvia ligao com as altas esferas.

    - De que maneira?

    - No ser muito difcil se possuirmos algum treino anterior. Em caso

    contrrio, demandar certo esforo. Sabe como difcil dirigir a ateno para um

    determinado alvo, principalmente se esse alvo estiver dentro de ns mesmos, isto

    , depender de nosso pensamento.

    - No seria melhor dizer imaginao criadora?

    - timo. Como dizia, imprescindvel subir.

    - E como se consegue? Explique-me tudo detalhadamente.

    - A primeira orientao que recebi nesse sentido, anos atras, foi da parte de

    uma senhora atendente do planto de entrevistas de uma boa Casa Esprita de So

    Paulo. Tambm me sentia como que perdido, no incio. Nada conhecia sobre esse

    terreno prtico, e minha perplexidade era total.

    A plantonista iniciou-me nesse particular, contando, simplesmente, como

    realizava, ela prpria, seu preparo. Ao reunir-se semanalmente com os filhos para

    o Evangelho no lar, ia gradativamente forjando um cenrio mental com a

    participao dos presentes. Principiava concitando todos a se imaginarem num

    campo muito verde, sob a sombra de uma rvore frondosa, sentindo correr sob

    seus ps um regato de gua cristalina. Depois, experimentando o inebria- mento

    daquele cenrio, onde no faltava sequer a brisa acariciadora...

    - Oh, temos poesia!...

    - ...todos observavam Jesus, triunfalmente envolto num grande foco prateado,

    surgir no horizonte e aproximar-se, gradativamente, imantando todos com Sua

    radiao luminosa.

    - Lindo!

    - Pois bem. Essa visualizao de nosso perisprito banhado de luz que nos

    certifica de estarmos realmente ligados ao alto.

    - Excelente.

    - Como pode perceber, em se tratando de pessoas de menor preparo

    doutrinrio, ou mesmo de crianas, mister dirigir em voz alta essa moldagem do

    pensamento coletivo.

    - Acredito. - No entanto, os adultos...

    - Espere, Samuel. Tambm os adultos devem beneficiar-se com uma

    orientao desse tipo, porque (e imagino, baseando-me na prpria experincia)

    poucos sero capazes de realizar essa magnetizao do esprito sem um

  • auxiliozinho como esse que aquela senhora lhe explicou.

    - Tem razo. Porm os mais habituados tero sua prpria maneira de

    providenciar o preparo necessrio.

    - E voc, como faz?

    -J deve ter deduzido que nosso pensamento poder levar-nos para onde

    desejarmos. As vezes, projeto uma escada imensa, luminosa, que me transporta

    at Jesus. Outras, dessa escada passo a um jardim suntuoso, de cuja amurada

    enxergo nosso globo terrestre.

    - Que maravilha!

    - De fato, realmente encantador, porque me sinto tambm imantado sob

    energias poderosas e em condies de enviar ao mundo minhas vibraes

    amorosas.

    - Continue, continue...

    - Noutras ocasies, basta plasmar um grande corao luminoso, aureolado de

    flores. Dessa resplandecncia, fao descer sobre mim e meus companheiros uma

    chuva de ptalas. Sinto-me totalmente envolvido em fluidos superiores. Ah, ia me

    esquecendo de dizer-lhe: para que se estabelea essa ligao, h necessidade de

    enchermos nosso corao de alegria, afastando todo e qualquer pensamento menos

    otimista.

    - E quando h outras pessoas orando conosco?

    - Ser interessante que se transmita verbalmente essa criao mental a fim

    de que os participantes dirijam suas energias para a mesma ideia, o que reforar

    os laos pretendidos.

    - Como no exemplo dado pela senhora atendente?

    - Exato.

    - E sempre se consegue estabelecer contato com os planos elevados? - Como tive oportunidade de explicar-lhe, isso depende muito de nossa

    experincia. Haver ocasies em que a operao demandar um grande esforo.

    - Sim?

    - Quando, por exemplo, houver cado o padro vibratrio do ambiente em

    que nos encontramos.

    - Ou o nosso, tambm. No pode baixar?

    - Claro, pode sim. Como somos muito imperfeitos, a todo instante estamos

    cometendo pequeninos erros, principalmente envolvendo terceiros, o que nos

    coloca a conscincia em polvorosa.

    - Ah, mesmo. Tenho muito disso...

    - Tambm eu, Marcos. Embora nos esforcemos pela santificao, a coisa

    caminha devagar, mesmo.

    - , as asas custam a empenar, Samuel, ainda que...

    - ...as aguemos diariamente.

    - Ento?

  • - Como pode perceber, necessrio preparo para que a prece surta efeito.

    - Vou procurar seguir esse processo.

    - Atualmente, basta tranquilizar-me durante alguns segundos para

    enxergar o Mestre totalmente envolto em luz, transparente at, como esprito

    puro. A partir dessa mentahzao, fcil trazer sobre minha figur e a de

    todos que espiritualmente coloco a meu lado a corrente luminosa das radiaes

    superiores.

    Captulo 3 INTERFERNCIA DE OBSESSORES

    Mas o justo viver pela fe. Paulo (Romanos, 1:17)

    - Samuel, outro dia voc me falava sobre a orao, de como estabelecer

    contato com o alto.

    - Sim.

    - Pois lhe digo que encontrei muita dificuldade. Meu pensamento flutuava, no

    conseguia concentrar-me. Ontem e hoje, porm, parece-me que houve um razovel

    progresso.

    - Quanto mais se esforar, melhor. Isso tambm depende de treino, Marcos.

    Lembro-me de que, quando jovem, costumava ter meus surtos de misticismo.

    Atirava- me s prticas religiosas como um nufrago que se agarra a uma tabua

    salvadora. Contudo, no conseguia mentalizar Jesus, embora me fixasse num ou

    noutro santo, ao tentar meus contatos.

    - Engraado. Tenho uma amiga que dizia ser assediada por figuras obscenas

    envolvendo a entidade a quem dirigia sua devoo, logo aps o incio de suas

    novenas. Resultado: envergonhada com aquilo que ela considerava fruto do seu eu

    em desvarios, abandonava logo a prtica piedosa.

    - Isso bastante comum, Marcos.

    - Deveras?

    - E o momento oportuno para o ataque dos obsessores. Assim procedendo,

    pretendem fazer sua vtima abandonar a prece, a fim de que no receba auxlio,

    isto , reforos, do lado espiritual.

    - E a pessoa, julgando-se autora dos descalabros (principalmente se houver

    lido Freud)...

    - A pessoa sente-se profundamente culpada, uma espcie de agressora

    hertica, agindo contra a figura de seu santo. Este caso, agora, faz-me recordar

    uma cena cmica de Ea de Queiroz.

    - Ah, j sei: O crime do Padre Amaro} -Isso mesmo. Voc tambm o leu? Nesse romance - lembra-se? - uma das

    beatas levada ao confessionrio, sob desesperado drama de conscincia, por

  • enxergar despido e em atitude indecorosa o nobre taumaturgo a quem suplicava...

    - Espere, Samuel. No ter sido em A relquia, no? Voc sabe que eu li praticamente tudo que o grande ficcionista portugus escreveu. Mas, numa ou

    noutra dessas obras, como dei risada com essa ideia, imaginando-a pura

    invencionice do notvel escritor!

    - Pois . Todavia, Marcos, ainda que sucedam essas intromisses, que so como

    estticas nas captaes radiofnicas, o praticante no deve, em hiptese alguma,

    abandonar sua prece. O plano espiritual j conhece tais fenmenos e sabe

    desculp-los. Com perseverana, a criatura acabar vencendo e isolando esses

    perturbadores nas horas necessrias, conseguindo depois, com facilidade, suas

    comunicaes com a Espiritualidade Maior.

    - Vou esclarecer a essa minha amiga e incentiv-la novamente.

    - E, assim, ela passar a usufruir dos bens inestimveis produzidos pela

    orao, independentemente do credo que abraar.

    - E como vm essas benesses?

    - Em forma de estmulo, de energia, de revigoramen- to moral e fsico.

    - H quem se queixe de no receber auxlio algum.

    - Isso se d justamente com aqueles que no fazem o preparo adequado,

    conforme lhe foi explicado.

    - Certo. Escute: encontrei, dias atrs, um amigo que no via h algum tempo.

    Confessou-me estar atravessando uma fase difcil, pois carrega um problema de

    ordem afetiva. Devido a isso, lembrou-se da prece.

    - E a hora em que todos se voltam para o Pai. Hora do sofrimento.

    - Bendito seja, ento.

    - V como funciona isso?

    - Contudo, Samuel, o coitado mal consegue balbuciar as frases decoradas na

    infncia e j seu pensamento se desarticula e, com ele, a prpria linguagem. Como

    havia escutado suas explicaes, tentei transmiti-las, esmerando-me em detalhes,

    a fim de auxili-lo. Hoje, tomei a encontr-lo, totalmente desolado, porm.

    Tentara, com empenho, enxergar-se debaixo de um foco luminoso, mas fora tudo

    em vo. No soube mais consol-lo.

    - De fato, Marcos. Quando a perturbao do ser muito grande, ele se v

    totalmente apartado das esferas superiores, constatando-se, em casos

    frequentes, uma inibio natural que o afasta da meta desejada. Apesar do justo

    desejo de ascenso, inconscientemente, no entanto, d-se um bloqueio, uma reao

    adequada com o non sum dignus1. E preciso, pois, um esforo muito grande no s

    para vencer as foras obsessoras, que procuram nos afastar dos caminhos

    redentores, quanto tambm, e principalmente, para reagir contra a acomodao e

    o desnimo provocados (sem o percebermos) por um desejo de autopunio, um

    1 * No sou digno (Nota do editor).

  • deixar-se sofrer, a fim de apagar as terrveis dores conscienciais que se

    acotovelam arraigadas ao nosso perisprito, como demnios de nosso inferno

    particular.

    - Essa explicao boa, Samuel.

    - Para seu amigo, recomenda-se um tratamento espiritual especfico, que o

    auxiliar a livrar-se da perturbao. H casos em que o infeliz nada pode realizar

    sem o concurso da Caridade Divina. Alm do mais, aprender a valer-se do

    Evangelho como fator essencial de obteno da paz interior.

    - J sei. Eu mesmo o acompanharei ao planto de atendimento. Ele muito

    tmido.

    - Faz bem. A maioria dos homens julga que os assuntos religiosos so restritos

    e adequados s mulheres. Sentem-se quase - como diria? - diminudos, sendo vistos

    em ambientes de devoo.

    - No precisamos buscar exemplo muito longe. Eu mesmo - lembra-se Samuel?

    - s me decidi porque no suportava mais os tormentos, e principalmente...

    - Por minha causa, Marcos, eu sei.

    - Exato. Porque o vi to firme, to convicto.

    - Complete... e to feliz.

    - E verdade, meu caro. A felicidade que se evola de voc representa um

    pequeno sol aquecendo a todos. Sua alegria e confiana contagiam-nos de tal

    forma, a ponto de querermos estar sempre ao seu lado.

    - Ora, no exagere, amigo. Deixe-me contar-lhe algo engraado a respeito

    desse problema de orao, de que tratvamos h pouco.

    Uma senhora adventista, certo dia, relatou-me que na sua escola dominical,

    nos tempos de estudante, faziam sorteios para escalao dos encarregados da

    prece de cada semana. Quando acontecia de serem escolhidos determinados

    colegas terrveis, indisciplinados, que, no entanto, mostravam-se durante o ato

    laudatrio possudos de uma uno despropositada, os outros, em zombaria, apos a

    prtica religiosa, armados de vassouras, corriam a vasculhar o teto.

    - E para qu, ora essa?

    - Para desencalhar as oraes que, segundo eles, deveriam ter ficado

    fatalmente presas ao forro.

    - Muito boa.

    - E, quanto a voc, Marcos, encontra dificuldades, ainda, para se concentrar?

    - Agora j estou mais animado. Ontem, e principalmente hoje, consegui

    mentalizar-me na espiral luminosa. Confesso-lhe que, embora a sensao fosse

    passageira, senti- me renovado.

    - Claro. Nesse momento, como por instinto, respiramos profundamente.

    - De fato. Pareceu-me haver sido invadido por energias estranhas.

    - que, nesse instante, d-se a magnetizao de nossos perispritos, que

    recebem assim, por induo, a carga energtica superior com a consequente

  • renovao das foras vitais. Sabe, amigo, as leis que regem os fenmenos

    espirituais, muitas delas, j foram descobertas no plano fsico, como esta, por

    exemplo.

    - J sei: um corpo aquecido, aproximando-se de outro, transmite-lhe, por

    induo, a temperatura de que portador.

    - Muito bem. Tambm ns, quando nos aproximamos de um corpo com energia

    vibratria de frequncia alta, tambm vibramos nessa mesma altura. Da essa

    maravilhosa sensao de renascimento fsico e espiritual que experimentamos no

    ato da prece.

    - Mas... daquela em que se obtm ligao com os planos superiores, no ?

    a Sim. A outra, que se resume na repetio maquinal de frmulas, nada produz

    seno...

    - Sono. Que me diz, heim?

    - E evidente. A respeito dessa lei fsica e espiritual, amigo, resta-me

    lembr-lo ainda de que o mais forte sempre aquele que abre mo de sua

    potencialidade, cedendo uma parte dela ao mais fraco.

    - Como?

    - J no lhe falei sobre o corpo aquecido que, aproximando-se do outro,

    tambm o aquece?

    - Ah, sim. Nunca se d o inverso, no ?

    - Lgico. sempre o corpo de temperatura menor que recebe calor do outro e

    se iguala. Jamais aconteceu do primeiro resfriar-se pela proximidade do segundo.

    Assim tambm na espiritualidade. Jamais os planos superiores baixaro o teor de

    suas energias para igualar-se a ns.

    - Ns que, indo at eles...

    - Colocamo-nos em sintonia vibratria com as esferas superiores.

    Momentaneamente, verdade, no nos esqueamos disso. Todavia, uma

    experincia que tem o sabor e a validade da plenitude total, pois que representa a

    transcen- dentalizao do nosso ser. o instante em que nos integramos na

    Unidade Criadora, o minuto do encontro na eternidade.

    - E se levarmos em considerao que devem ser to poucos os que conseguem,

    definitivamente, atingir esses planos de evoluo...

    - Sim, Marcos. Tambm essa uma faceta importantssima. Embora no

    possamos dizer que os caminhos que nos conduzem ao Pai estejam cerceados a

    quem quer que seja - pois que somos todos feitos do mesmo material e com a

    mesma potencialidade evolutiva -, precisamos convir, entretanto, que se faz

    necessria a conquista gradativa de determinados padres morais e espirituais,

    para ir conseguindo trilh-los em direo ascensional.

    - No basta a vontade, portanto?

    - No, no basta, conquanto se deva admitir que o homem de boa vontade j

    possua o princpio. desse ponto que, por meio da luta acirrada contra suas

  • prprias imperfeies...

    - Ah, entendo. Refere-se ao aprimoramento interior.

    - Sim. por meio dessa luta (da qual faz parte o estudo) que o ser humano

    passa a constituir-se em candidato cada vez mais credenciado a pertencer a esses

    estgios de ascenso espiritual. Voc e eu, por exemplo, ja sabemos quo rpida

    nossa permanncia nessas regies - durante a prtica da orao -, apesar de nos

    esforarmos continuamente por nosso aprimoramento moral.

    - Fale apenas por voc, meu caro, que um devoto de coisas da espiritualidade.

    - Sim, admito estar h mais tempo mourejando na Doutrina, mas voc, mesmo

    novato, tambm se esfora, e dia chegar em que haver de colocar-se na

    plenitude, cujo sabor j nos tem sido dado provar pela Misericrdia do Pai, por

    meio dessas rpidas incurses em pensamento e vibrao.

    - Espere um pouco, Samuel. Explique-me tudo, devagarinho. Permita que seu

    aluno faa as dedues morosamente, como todo estudante.

    - vontade.

    - Em primeiro lugar voc disse da necessidade e do valor da prece, porm

    somente aps estabelecer-se a devida ligao com planos elevados, o que no

    muito fcil.

    - Sim.

    - Depois, disse da dificuldade de atingir evolutivamente esses planos...

    - Certo.

    - ...que, segundo pudemos deduzir, no se situam todos no mesmo nvel.

    - Isso. Nem poderiam situar-se. Imagine como devem ir se depurando as

    radiaes espirituais, conforme se aproximem do Grande Foco. E no seremos ns,

    pobres seres mesquinhos - alguns mais, outros menos - os que pretendero atingir,

    mesmo por um timo, essas fontes amorosas mais elevadas.

    - A altura dos estgios dos prprios espritos puros?

    - Como Jesus Cristo, meu caro Marcos. E quando nos esforamos pelo

    pensamento simblico por alcanar o Mestre, fazemo-lo na certeza de um alcance

    virtual, sabendo que, na realidade, nosso ser somente poder (mesmo que por

    instantes, no nos esqueamos), s conseguir atingir alturas medianas, aonde nos

    conduzam nossa moral e corao desejosos da perfeio, porm ainda muito

    eivados da materialidade grosseira que tanto lutamos por superar.

    - E, no entanto, esses planos j nos podem proporcionar tanto deleite, ainda

    que sob as condies que acabou de descrever.

    - Pois , meu amigo. O que deve haver de maravilhas por esse espao afora!

    - Nem diga. Ento, Samuel, nossa ascenso no ter limites?

    - Realmente, no ter, pois decorre do esforo de renovao moral, atitude

    caracterstica dos que se projetam na direo do infinito.

  • Captulo 4 0 VALOR DA ORIENTAO

    Porque onde estiver o vosso tesouro, ali estar tambm o vosso corao." Jesus (Lucas, 12:34)

    - Como mesmo que voc explica, no plano espiritual, aquela lei da qual me

    falava outro dia?

    - Transmisso de energia trmica de um corpo a outro?

    - Isso mesmo.

    - Pois, na espiritualidade, ela se revela nos inmeros exemplos de imantao

    vibratria superior. Quando conseguimos nos ligar com setores espirituais mais

    elevados, nos, que comparativamente nos colocamos na posio de corpos frios,

    recebemos uma boa dose dessa energia superior, momentaneamente, o que nos

    traz uma sensao de felicidade intensa. Lembra-se de que lhe falei ser o doador

    sempre o mais aquecido, o que possui maior potencial energtico, no?

    - Sim.

    - Pois isso nos traz baila a questo da caridade. Quando auxiliamos algum,

    dando vazo s energias amorosas existentes em ns, estamos exercitando essa

    lei. Ainda mais: se podemos doar, estamos nas condies superiores do corpo mais

    aquecido, o que um privilgio.

    - Interessante. Vejo agora que, sem saber, creio que, intuitivamente, dei um

    conselho deveras construtivo a uma amiga.

    - E como foi?

    - Queixava-se ela de que h meses tem em sua casa, hospedadas, trs

    sobrinhas do marido, vindas do interior, para arrumarem emprego.

    - E queixava-se por qu?

    - Devido s despesas. Todavia, no h problema financeiro. Eles esto bem. Eu

    a fiz ver, ento, que, em lugar de se sentir lesada, deveria agradecer a Deus a

    oportunidade de servir, uma vez que neste mundo h duas classes de pessoas: as

    que podem e devem dar e as que precisam receber. Se temos que nos encaixar

    dentro de uma dessas divises, no seria mil vezes prefervel que nos

    encontrssemos em posio de doadores?

    - Bravo, bravssimo, Marcos. E como reagiu essa sua amiga?

    - Refletiu seriamente e reconheceu.

    - Voc a fez feliz, evidentemente, com essas consideraes. Atente,

    portanto, para a importncia da palavra! Quantos de ns agem mal aconselhando

    erroneamente os amigos [ue se encontram j desnorteados?

    - , s vezes, uma palavra desatenta ou maldosa pode tornar as pessoas muito

    infelizes.

    - E lev-las at mesmo ao desespero, ou...

  • - Talvez ao crime?

    - Ou ao suicdio. Admito que sejamos sinceros, que externemos nossa opinio

    com franqueza, com lealdade. Mas h maneiras e maneiras de falar!

    - Voc no acha que aqui podemos encaixar o fator caridade?

    - No s caridade quanto sabedoria, Marcos. Este um dos ngulos do

    relacionamento humano em que se exige bastante equilbrio do indivduo chamado a

    opinar. Temos que, frequentemente, usar de ponderao para - no faltando com a

    verdade - levar ao interessado o conselho correto, sem aborrec-lo ainda mais.

    - No fundo, o infeliz sabe que errou, no sabe?

    - Sabe, sim. J recebeu intuitivamente a sua repreenso.

    - E se nos consulta?...

    - na esperana de ver sua atitude - que ele j sentiu ser errada - apoiada por

    um terceiro, para desafogo de sua ebulio consciencial.

    - Ebulio, Samuel?

    - Sim, amigo. J percebeu de que forma, diante do menor erro, nossa

    conscincia entra em atividade, como se fora um verdadeiro vulco?

    - fato! Sofre-se horrivelmente...

    - ...embora busquemos por todos os meios nos justificar, mascarando os fatos.

    Ento, procuramos os amigos, relatamos o ocorrido, perguntando-lhes em seguida

    se no admitem que fizemos bem em agir ou reagir de tal maneira.

    - nessa hora que devemos ser sinceros, sem mago- los, no?

    Claro! a oportunidade de demonstrarmos nosso equilbrio.

    - Acho muito complicado, Samuel.

    - Mas necessrio, Marcos. Alis, nele repousa toda a sabedoria de viver.

    Vive-se mal, trocam-se as mos pelos ps, tudo devido falta de equilbrio.

    - Em meio virtude...

    - Sim. Muitas vezes, desejosos de exercer a fraternidade, pendemos para um

    s lado, oferecendo em demasia, e portanto...

    - ...faltando com a verdade e at deseducando.

    - Ou ento, ciosos de nosso dever como orientadores, somos demasiado

    drsticos...

    - ...deixando o interessado sob total desolao...

    - ...o que falta de caridade!

    - Enfim, difcil, heim?

    - Bastante, Marcos. E por isso que em nossas oraes pedimos equilbrio e

    sabedoria ao Pai. Quando sinceros, sempre recebemos o auxlio necessrio para

    efetuar na Terra o trabalho educativo de que somos investidos.

    - Todos ns?

    - De modo geral, sim.

    - Explique-me isso, amigo.

    - Pois no. Est claro que todos os seres de boa vontade, desejosos de

  • espalhar a felicidade ao seu redor, recebem orientao do mundo espiritual, desde

    que seja estabelecida a ligao necessria.

    - Percebo: atravs da prece, da atitude de mansido, humildade e amor

    fraterno, no ?

    - Perfeitamente. Isso no que diz respeito ao trato cotidiano, ao processo vital

    em que estamos mergulhados. A todo instante surgem, pois, nossa frente, casos

    de irmos necessitados de uma orientao, de uma palavra de conforto, de um

    norteamento especfico, que lhes possibilite tomar decises acertadas. De modo

    geral, cabe sempre aos mais evoludos desempenharem tarefas nesse sentido.

    Contudo, no que tange nossa vida particular, cada um de ns traz sempre, como

    misso, o encaminhamento de, no mnimo, um esprito que nos seja inferior.

    - Filhos?

    - No somente filhos, como tambm, s vezes, o prprio marido ou esposa, ou

    qualquer outra criatura necessitada de orientao.

    - Interessante.

    - Alm do encarnado que nos orienta...

    - Pai ou me?

    - Geralmente, ambos. Como dizia, alm dos nossos orientadores encarnados,

    temos tambm uma entidade espiritual que nos superior.

    - Nosso anjo da guarda?

    - Pode cham-lo assim, se o desejar.

    - E ele nos superior?

    - Sim. Caso contrario, nunca o teramos como guia.

    - . Tem razo, meu caro. Estamos, ento, colocados no meio?

    - Todos. Recebemos do nosso doador e passamos nossa contribuio aos que

    de ns dependem. Retribumos, assim, ao Pai Criador, o bem com o qual nos brinda.

    - E temos que faz-lo devotadamente, no?

    - E lgico. Procurando pagar na mesma moeda, usando para com nosso

    dependente da mesma dose de amor e pacincia com que nossos benfeitores -

    tanto os do plano encarnado quanto os do espiritual - executam sua carinhosa

    tarefa para conosco.

    - Samuel, voc acha que lhes damos muito trabalho?

    - E ainda duvida? Numa das pginas memorveis do livro Instrues psicofnicas encontramos uma advertncia preciosa.

    - No conheo essa obra.

    - Est ali, na biblioteca. Leve-a quando for para casa. Vai gostar muito... Como

    dizia, numa das comunicaes transcritas no livro, o comunicante, recm-liberto

    da vida fsica e transformado em orientador dos ex-companheiros do grupo

    doutrinrio, confessava as dificuldades que encontrava, agora, de como auxiliar

    do lado de l, para dirigir os colaboradores remanescentes, em face do

    exagerado personalismo e das imperfeies incmodas que eles apresentavam, as

  • quais tornavam o trabalho do obreiro em questo num quase suplcio.

    - Ah, ento assim?

    - Voc pode deduzir, por este exemplo, como devemos aborrec-los com nosso

    desleixo, nossa preguia e todos os inmeros defeitos que ns nem sempre nos

    esforamos por combater. Por isso, tambm, no podemos nos queixar diante das

    dificuldades encontradas por ns, na tarefa de educao das criaturas a quem nos

    coube dirigir. Lembremo-nos de que, provavelmente, damos ao nosso protetor

    tanto trabalho e dores de cabea quanto os nossos afilhados nos do.

    - Talvez mais, at.

    - Pode ser, meu caro.

    - Pensando bem, como importante conhecer esse mecanismo todo, no?

    Quantas asneiras cometemos por desconhecer essas verdades!

    - Tem razo, Marcos! Que de lamrias, queixas sem fundamento, por alguns

    trabalhos nesse sentido! Quantos casais se separando, filhos abandonando os pais,

    tudo sob uma justificativa tola de incompatibilidade de gnios.

    - Ah, lembro-me agora de um caso que vem a propsito. J havia feito

    observao mais ou menos afim, embora no conhecesse direito o assunto, como

    voc acaba de revelar.

    - Sim?

    - Trata-se de uma conhecida, desquitada e casada pela segunda vez com um

    rapaz que lhe trouxe, por estranha coincidncia, os mesmos problemas que o

    primeiro marido lhe trouxera (com alguns agravantes) e que haviam motivado a

    primeira separao.

    - Interessante.

    - E o fato assume, agora, um aspecto terrivelmente significativo, em face da

    explicao que voc me deu.

    - Tem razo. Se a moa no suportou a primeira tentativa e renunciou,

    recebeu do Pai Misericordioso, entretanto, uma segunda oportunidade, e nesta

    mesma existncia, o que causa de bastante esperana.

    - Ela deve se considerar privilegiada, ainda?

    - E evidente, pois se precisava exatamente aprender determinado ponto,

    conquanto o instrumento da aprendizagem tenha sido mudado, a lio continua

    sendo recebida, ainda que com o auxlio de outro protagonista.

    J sabemos que o mundo uma escola. A maior vantagem dessa conhecida sua a

    de que conseguiu outra chance nesta mesma existncia. A maioria, por

    precipitao, desperdia a oportunidade encarnatria sem saber quando ou onde

    poder ressarcir-se dessa insensatez.

    - Que exemplos maravilhosos os que temos a pela vida afora!

    - Se pudssemos ter olhos para tudo, heim? Se nos fosse dado compreender

    os fatos e fundament-los nas leis...

    - ...que nos vo sendo reveladas pouco a pouco, no ?

  • - Sim. Se consegussemos enxergar com a viso dos mestres da

    espiritualidade, veramos que poema a existncia! E perceberamos quanta

    sabedoria filtrada dos fatos, quanta beleza reflete nos destinos aparentemente

    inglrios a profunda Misericrdia do Criador!

    Captulo 5 TAREFAS DEFINIDAS

    Brilhe a vossa luz. Jesus (Mateus, 5:16) - Bons olhos o vejam, amigo!

    - Salve! Que tal darmos uma volta? A noite est

    linda.

    - tima ideia. Deixe-me trocar os chinelos pelos sapatos.

    - Veja que cu maravilhoso, Samuel.

    - Magnfico.

    - Basta olh-lo para sentir-se nele o reflexo do Criador.

    - Realmente. E pensar que h pessoas inabilitadas para captar a profundeza

    sublime de um cu estrelado!

    - Incapazes at de olhar fora de si. No h criaturas assim?

    - Claro. O pessimismo e a averso sociedade so os primeiros sintomas da

    molstia traioeira que est minando o ser humano.

    - Qual?

    - A falta de amor. O homem est totalmente mergulhado no desajuste, por

    no querer alimentar dentro de si as foras positivas que o impelem

    fraternalmente ao encontro dos seus irmos. E esse desequilbrio que gera as

    outras doenas.

    - Imagino que sim.

    - O amor fonte de paz, de sade, de alegria. Voc j pensou num Plano

    Espiritual Superior, o que ns costumamos chamar de...

    - ...Cu?

    - Isto. J imaginou - como bem nos chama a ateno o expositor das sesses

    de estudo do Evangelho...

    - O expositor? Ah, sim. Falvamos nisso outro dia...

    - Ento, j pensou? Um local desses, repleto de criaturas doentes,

    neurastnicas, carrancudas, de sobrecenho carregado, fugindo do contato de

    outros companheiros?

    - Tem razo. Um local onde, por exemplo, ningum sorri?

    - Um lugar desses jamais poderia ser chamado Cu.

    - Concordo. Cabe-lhe melhor o nome de Terra. Quando ensaiamos um sorriso,

    aqui, quase somos presos.

  • - Parece mesmo pilhria, Marcos, mas de tal forma nos encaminhamos para a

    completa inverso de valores que talvez chegue logo o dia em que, por causa de um

    sorriso, sejamos at encarcerados.

    - Ah, ah, ah. Essa muito boa, Samuel. Autuados em flagrante. Cadeia aos

    infratores.

    - No e mesmo? E, no entanto, o sorriso - refiro-me ao produto do otimismo

    sadio, no ao gracejo atrevido - fonte de bem-estar, de tranquilidade. Pois

    somente o otimista e, portanto, o equilibrado pode ser naturalmente alegre.

    - Conscincia sem problemas, Samuel.

    - Perfeitamente. E como so pouqussimos os que se podem manter em paz

    nesse sentido. Cada vez mais escasseiam os homens alegres. Por isso Jesus

    pregava o amor como lei primeira e ltima.

    - Sim?

    - O indivduo que tem, como tnica de seus atos, o amor no se envenena.

    - De que modo?

    - No lana negativismos ao seu redor e, portanto, no os tem de recolher. J

    no tivemos uma palestra nesse sentido?

    - Quando voc me explicou sobre a dor.

    - Pois bem. Se a mola que impulsiona o ser o amor, ele evidentemente ter

    deixado inoperantes todos os aspectos negativos de sua personalidade, se no os

    houver ehminado, o que se torna, por enquanto, no nosso globo, praticamente

    impossvel.

    - Sim. Perfeio utopia.

    - De qualquer forma, ainda que subsistam algumas deficincias, sendo o amor o

    principal estmulo das aes humanas, ele se encarregar de soar mais alto que os

    outros aspectos deficitrios.

    - E ento...

    - Nas relaes interativas, a boa vontade ter voz audvel; a compreenso

    proporcionar a desculpa e o perdo; com a generosidade estimulada, o ser

    pensar antes em dar do que em receber.

    - Pelo menos o fgado deve melhorar bastante.

    - Voc brinca, mas acerta plenamente. V o meu caso, caro amigo. Antes de

    aderir Doutrina, eu definhava. Nada mais podia comer, pois tudo me fazia mal.

    Tinha j comprometida a vescula e, no estmago, a gastrite ameaava

    transformar-se em lcera.

    - E agora est a, vendendo sade.

    - Graas a Deus, caro amigo. No quero dizer que o Espiritismo tenha o mrito

    de curar, por si, somente. Quem se curou...

    - ...foi voc prprio...

    - ...seguindo as normas de vida ditadas pelos preceitos do bem viver,

    encontradas na Doutrina, e, principalmente, efetuando gradativamente minha

  • reforma interior, pautando meus pensamentos e aes pelo Evangelho do Cristo.

    - Da maneira como voc se expressa, deixa bem claro que a felicidade no est

    restrita ao esprita.

    - A felicidade se oferece aos verdadeiros apologistas do amor. O que importa

    ter a alma evangelizada, pautar as aes pelas normas crists da fraternidade.

    No desejamos, todos ns, espritas convictos, a soluo ecumnica? Porque

    sabemos que, na essencialidade, o que necessitamos do homem transformado, e

    no de determinados dogmas ou liturgias.

    - A afirmao de que a criatura, havendo aderido a tal ou qual doutrina, j est

    salva, tolice?

    - Num certo sentido, se essa determinada corrente religiosa lhe oferece

    meios para reformar-se moralmente e, por meio de seu prprio esforo, alcanar

    um padro espiritual superior, pode-se, usando de uma figura de estilo, afirmar

    essa salvao. Tomando-se a expresso metaforicamente, no ao p da letra.

    Porque a simples adeso a esta ou quela religio no toma ningum melhor. Ao

    contrrio, muitas vezes, tratando-se de pessoas muito medocres, falta-lhes um

    esteio dogmtico em que fundamentar-se para dar vazo s suas necessidades

    inferiores. Ento, escudadas, freqiientemente nas prprias escrituras sagradas

    que lhes passam s mos com adoo do novo credo, desandam a cometer os

    maiores desatinos, a perseguir com palavras e atos os seus desafetos, convencidas

    de estarem servindo a desgnios superiores.

    - Mas isso intolerncia religiosa.

    - Entre outras coisas, Marcos. Uma santa inquisio domstica.

    - Essa boa.

    - Os conselhos das Esferas Superiores pautam-se sempre pela mesma tnica:

    preciso estudar.

    .. -'Amor e estudo.

    - . Estudando, haver maior possibilidade de amor. Quantos de ns, se

    conhecssemos certos ngulos do psiquismo humano...

    - ...se nos conhecssemos, ento...

    - ...no teramos outra atitude em face de determinadas falhas de nossos

    companheiros?

    - E, tem razo. V

    - As vezes, faltamos com nosso prprio dever, deixando de socorrer algum a

    quem, precipitadamente, julgamos culpado. Ao conden-lo, estamos nos arvorando

    em juizes, sem atentar para uma anlise mais objetiva, sem avaliar as razes que o

    impeliram para tal desatino e que, se agissem - essas mesmas razes - sobre ns

    prprios, possivelmente nos levariam a uma reao semelhante ou ainda mais grave.

    - No acredita, ento, em livre-arbtrio?

    - evidente que sim, meu caro. Existe, de fato, a possibilidade de opo. A

    cada instante de nossa vida, nos momentos importantes e decisivos, ns temos o

  • direito de escolher.

    - E esse direito de escolha o que se chama de livre- arbtrio?

    - Exato. Todavia, quanto menos esclarecido e mais imperfeito for o indivduo,

    maior possibilidade ter de optar erradamente.

    - Ento, Samuel, no h uma culpa total do indivduo que erra?

    - Culpa, nesse sentido em que usa a palavra, no. Mas a responsabilidade da

    escolha -lhe imputada na razo direta de seu adiantamento.

    - Como?

    - H seis meses, por exemplo, quando voc no tinha ainda conhecimento da

    Doutrina, se cometesse alguma falta, ela no lhe seria inculpada com tanto rigor

    quanto se a praticasse agora. Como sabe, h crimes grandemente condenveis pela

    Justia Divina, embora nem de leve sejam abordados nos cdigos terrenos.

    - J sei: a maledicncia um deles.

    - Correto. Quanto ao livre-arbtrio, ele existe nessa possibilidade de escolha

    que o Pai nos oferece, mas que grandemente inspirada pelo lado espiritual, o que

    no nos exime da responsabilidade. Assim que a influenciao nos imposta sob

    os dois aspectos: o negativo e o positivo.

    - Como aquela propaganda? Olhe l aquele cartaz, Samuel, vem mesmo a calhar.

    - Estou vendo, Marcos!

    - Um anjo que aconselha ir a tal exposio...

    -,...e um diabinho que o incita a desistir. Pois o que acontece conosco, meu

    caro. Sofremos influncia dos dois lados. Procurando estar sempre ligados aos

    planos superiores, receberemos bons conselhos por intuio. E lgico, alm disso,

    que o estudo e o esclarecimento nos auxiliam tambm opo correta. Por

    conseguinte, na prpria busca do conhecimento doutrinrio, j existe considervel

    dose de bom senso, pois, por meio dessa instruo, conseguiremos o equilbrio e o

    discernimento indispensveis para as grandes resolues de nossa vida.

    - Samuel, j sei que a boa influenciao nos advm de espritos familiares,

    amigos, protetores. E a m?

    - Essa, ao contrrio, voc tambm j o deve saber, vem-nos da parte de

    obsessores, velhos inimigos ferrenhos que nos acompanham desde tempos

    imemoriais, guardando desejos de vingana por nossa atuao maldosa, ou

    irresponsvel, em existncias passadas.

    - E quando terminamos por escolher mal? Que nos acontece?

    - Arrependemo-nos ao perceber as consequncias, que nada mais so que

    frutos da transgresso das leis.

    - Ento, somos punidos.

    - Espere, Marcos. E preciso entender muito bem esse termo. No somos

    punidos pelo Pai, nem pela Alta Espiritualidade. O que acontece, e que o povo chama

    erroneamente de castigo, nada mais que uma reao contrria e muito natural

    de uma ao mal dirigida.

  • - Deveras?

    - E como a queimadura que a criana acaba sofrendo ao teimar em encostar o

    dedo na chama do fogo.

    - E nossas queimaduras, desse modo, so nosso prprio castigo?

    - De fato, ningum toma conta de ns, por exemplo, como um feitor de

    escravos pronto a chicotear-nos a cada vez que erramos. Ns prprios, pela dor

    consciencial, tomamos sentido do que fizemos de negativo. Eis nosso castigo. E de

    erro em erro, vamos aprendendo.

    - Como na Escola Nova?

    - Sim. Dizem os pedagogos que a criana aprende por si mesma, pesquisando e

    executando seus projetos. E ns fazemos o mesmo. Ningum consegue aprender

    pela experincia alheia. preciso conquistar nossa vivncia.

    - Por mtodo de tentativa e erro?

    - Geralmente. Deduz-se, pois, que o esprito seja muito antigo e tenha a

    experincia de muitos milnios.

    - Espere, Samuel. Deixe o carro passar. Depois atravessamos.

    - Certo. Contudo, Marcos, no deduzamos, dessa afirmativa, que os homens

    tenham todos o mesmo ritmo de evoluo. H os vagarosos, os acomodados, que

    levam cinco, dez encarnaes para avanarem um degrau mnimo, enquanto outros,

    esforados, realizam grandes progressos numa s jornada.

    - Imagino o que o nosso Francisco Cndido Xavier esteja conquistando nesta

    existncia!

    - Lembrou muito bem, Marcos, mas considere tambm as existncias de um

    Bezerra de Menezes, de um Albert Einstein, de Albert Schweitzer, Eva Curie,

    Francisco de Assis, Vicente de Paulo, Lus Pasteur, para somente citar alguns.

    - Concordo. Dessa lista, apenas me falta noticia sobre esse segundo Albert. - Ah, sei: Schweitzer. Era judeu. Aos 36 anos, se no me engano, formou-se em

    medicina e seguiu para a frica, a fim de cuidar de negros leprosos. Fundou em

    Lambarne um hospital s suas prprias expensas.

    -J sei de quem se trata. Parece-me que publicou um livro, tambm.

    - Publicou vrios. Eram uma fonte de renda para manuteno de sua obra

    assistencial. De vez em quando, ia Europa exibir-se em concertos, como emrito

    organista que era, tambm para angariar fundos. Lutava com grandes dificuldades,

    principalmente de ordem financeira.

    - Este, ento, foi mais um dos vitoriosos.

    - No nos esqueamos, no entanto, de outros, humildezinhos, cujas vidas no

    ficaram registradas no mundo, mas que provavelmente tero sido lavradas em ouro

    no plano espiritual.

    - Tem razo, Samuel.

    - Quanto aos morosos, esses so os gozadores, os que imaginam que a

    existncia deve ser passada em festas, orgias, comemoraes. Ao desencarnarem,

  • descobriro, com pesar, que devero recomear tudo, com os agravantes de novos

    dbitos contrados na ltima existncia.

    - E voc acha que eles ainda permanecero no planeta, durante a nova fase de

    regenerao?

    - Tudo depende do grau evolutivo que possurem. Pode ser que nestas ltimas

    encarnaes hajam se descuidado, estando, contudo, bastante adiantados. Se o

    seu estgio for suficientemente classificado, possvel que tenham sua chance.

    Entretanto, acredito que um esprito de razovel adiantamento dificilmente se

    entregue aos prazeres da vida, descurando-se dos seus deveres. Como sabe, a

    caracterstica das criaturas superiores a do labor incessante. Quanto mais alta a

    sua escala, menor sua necessidade de repouso e mais devotadamente trabalha e

    produz. Conhece aquele refro popular: Se quer ver a tarefa cumprida, confie-a

    ao que mais luta e tem menos tempo?

    - Conheo-o. E verdadeiro.

    - Pronto. C estamos, de volta. Entre um pouco, Marcos.

    - No, obrigado, Samuel. Upa, rapaz, veja: so vinte e duas horas. Amanh,

    levanto-me s cinco. Boa noite, bons sonhos!

    - O mesmo lhe desejo. Aparea qualquer dia, de novo, para mais um passeio,

    heim? Boa noite!

    Captulo 6 DEFESA POR MEIO DO EVANGELHO

    Necessrio uos nascer de novo." Jesus (Joo, 3:7)

    - Sabe que ando preocupado e inseguro?

    - Com o qu?

    - Com a famlia, Samuel. Que ser de ns todos, sob esse clima de violncia?

    Cada vez que sai uma criana para a escola, ficamos, minha mulher e eu, to

    apreensivos, como se nosso filho fosse empreender a travessia do Atlntico.

    - No entanto, voc no perde seu bom humor.

    rj -r- No, eu falo srio. Essa histria de travessia que brincadeira, mas, realmente, vivemos muito preocupados.

    - E, meu bom amigo. S mesmo as mos de Deus para defender-nos, nessa

    poca difcil. E por isso que ns, espritas, estamos recebendo um alerta de

    espritos amigos, a fim de nos escudarmos nos Evangelhos. O lar, para estar

    protegido, precisa ter as escrituras sagradas lidas e vividas por todos os seus

    membros. Em caso contrrio, tudo poder acontecer. Qualquer um de ns est

    sujeito a acontecimentos infelizes e inesperados.

    - Acredita que estejamos no perodo descrito no Apocalipse?

    - E provvel. Se for, haver um crescendo de agresses, de perseguies, de

  • conflitos, desastres, catstrofes e guerras ate que a humanidade inteira,

    sucumbida e aterrorizada, ponha os joelhos em terra e suplique humildemente

    perdo ao Pai, por sua falta de f. Parece exagero de minha imaginao, no?

    - Teremos a o fim do orgulho?

    - Esperamos que sim. No instante em que o homem se vir lanado em terra e

    reduzido a um trapo, mas no antes disso, que o orgulho ser vencido.

    - Samuel, sabe o que me coloca em dvida? No entendo como o Pai Criador,

    que tudo pode e que o imcio e o fim de todas as coisas, permite a vitria das

    foras do mal, ainda que passageira. Francamente, no encontro justificativa.

    - Suas duvidas demonstram sua insipincia no assunto, meu caro. As foras

    malignas a esto, sem o saberem, colaborando com o processo redentorial do

    homem. Os espritos maus, os obsessores, so os devidos companheiros do ser

    humano atual, que, por sua m conduta, por sua ausncia de amor, de fraternidade,

    nada mais consegue atrair alm de negativismo. Eles, os espritos delinquentes,

    vm de volta, meu amigo, eles so aquela fora que retorna duplicada, com toda a

    dor consequente de desequilbrio lanado ao mundo pelo prprio homem

    desatinado. Eles, os espritos das sombras, so o dedo queimado da criana

    desobediente que faz questo de desatender os conselhos maternos. Eles, os

    espritos da discrdia, so o choro e o ranger de dentes dos que tudo possuram na

    vida, mas que jamais ergueram um dedo mnimo para auxiliar a quem quer que

    fosse.

    - Ento, no h por onde escapar: o homem o nico responsvel por tudo isto?

    - E evidente, amigo. O Pai deu-nos muitos conselhos, enviou-nos profetas,

    entregou-nos at Seu filho, nosso meigo Jesus, que se imolou para exemplificar o

    viver perfeito. E o que fizemos? Pouco evolumos. Alguns de nos, talvez, tenhamos

    nos esforado um pouquinho, pedindo, com humildade, o auxlio para a melhora de

    nosso ntimo...

    - Mas so poucos os que se esforam para o progresso interior!

    - E se continuam debaixo de suas imperfeies milenares, no ser numa poca

    terrvel dessas, em que h erupo de foras negativas por todos os cantos, que

    conseguiro equilibrar-se suficientemente para se manterem inatacveis. Quando

    acontece algum desastre ou conflito do qual so participantes, esto entregues

    sua prpria sorte.

    - A rigor, ento, no se pode falar na hegemonia das foras malvolas?

    - No clculo geral das foras universais em jogo, toma-se at cmico falar em

    vitria do mal. Isso no existe, quando se coloca em foco o pretenso dualismo

    Deus- demnio.

    - Tambm este no existe, ento?

    - O qu? Quem? O demnio? -.

    - Marcos, ns, espritas, entendemos que aquilo que certas religies

  • consideram como individualidade representativa do mal, com dinmica de alguma

    forma parecida com o poder do Criador, no passa de fora de expresso. Seria

    apenas mais um dos signos representativos das zonas onde falta a luz. Assim

    sendo, reinando pela fora nesses lugares de sombras, nas chamadas profundezas,

    haver, sim, espritos em estado de queda que, por seu orgulho, querem combater

    toda expresso de amor. Dessa forma, fica subentendida erroneamente, para

    muitos que ainda desconhecem a Doutrina dos Espritos, a existncia de Satans.

    O que se evidencia a ao de muitos espritos maldosos, querendo assumir

    posio de mando. Mas essa aparente supremacia de alguns temporria.

    - Agora entendo, Samuel. E qual seria, a rigor, a razo dessa avalancha de

    foras destrutivas caindo sobre encarnados?

    - Como j disse, a consequncia de um incessante obrar de iniquidades, que

    retorna agora com fora centrpeta.

    - Como o bumerangue, no ?

    - Isso. A vibrao inferior dos encarnados concorre;por outro lado, para

    sugar os espritos inferiores, que se acham dispersos pela crosta, Umbral e

    trevas e que se aliam ao torvelinho de destruio, participando intensamente dos

    acontecimentos, como verdadeiros agenciadores de desastres, intrigas, disputas e

    crimes de toda espcie.

    - Poderia Deus, com um gesto, suspender todo esse estado de coisas?

    - Poderia. Contudo, prefere deixar que as leis ajam corretamente, sigam seu

    curso normal, a fim de que o homem definitivamente aprenda, sentindo na prpria

    carne, como no exemplo da Escola Nova, a vivncia completa do erro e a

    necessidade inadivel de adotar, como fundamento, como base e condio

    indispensvel de felicidade, o amor nas relaes entre irmos.

    - Tem razo, tem razo, amigo. De que adiantaria tambm ao nosso Pai

    intervir, fazer cessar todo esse caos, se as criaturas continuariam sob o mesmo

    egosmo, to imperfeitas quanto antes? Dentro de algum tempo, seria

    imprescindvel nova ingerncia, no acha?

    - Sim. Compreendeu muito bem. Far-se-ia necessria outra interferncia

    porque o homem teria provocado estado idntico de ebulio mals, repetindo os

    crimes costumeiros, emitindo as indefectveis radiaes negativas, executando as

    mesmas aes malfazejas.

    - E. O mal est dentro de ns.

    - Exato.

    - E que acontecer?

    - Haver um batismo de fogo, meu caro, uma infinidade de acontecimentos

    crueis, findos os quais, a humanidade estar em condies de enfrentar as

    responsabilidades de uma civilizao mais adiantada.

    - O nosso planeta subir de categoria?

    - Perfeitamente.

  • - E ns tambm iremos acompanh-lo nessa ascenso?

    - Somente os que se afinarem vibratoriamente com o novo mundo, em padres

    mais elevados.

    - Enquanto isso, diga-me, caro amigo, que podemos fazer para auxiliar nossos

    entes queridos, nossos colegas, amigos, preserv-los da onda destruidora?

    Sente-se uma interrogao desesperada em cada olhar, uma sensao terrvel de

    insegurana como essa que eu sinto enquanto no vejo meus filhos de volta ao lar,

    no fim de cada dia.

    - Claro que poderemos auxili-los, e muito. Porm, nada conseguiremos,

    Marcos, se eles no se disciplinarem. Siga- me neste raciocnio: o desequilbrio

    fator responsvel pelo desencadeamento dos acontecimentos perigosos; para que

    haja equilbrio, preciso disciplinar o esprito; para disciplin-lo, h necessidade

    de um expurgo dos vcios e das imperfeies maiores. Como querer atrair

    Entidades Espirituais Superiores, para consequente imunidade contra os perigos,

    se nem em tese concordamos em perdoar um nosso desafeto? J no falo em amor,

    mas em perdo, simplesmente.

    - E, s vezes, os dios so oriundos de rixas banais.

    - Na maioria. Como v, ns podemos argumentar, apresentar centenas de

    arrazoamentos, provas, fundamentaes filosficas, o que quisermos. E o indivduo

    poder concordar com todo o processo do raciocnio demonstrado, poder

    mostrar-se convicto e desejoso de reforma. Entretanto, se no dia de hoje

    acreditamos nessa boa disposio, somente o amanh nos revelar se realmente

    houve renovao.

    - Ento, Samuel, esse o problema crucial da reforma ntima. No adianta s a

    boa disposio: h que se pr logo a caminho e ir afastando os obstculos.

    - Um a um. Ou melhor: um aps o outro. E no fcil. H indivduos (a maioria,

    pode-se dizer) que se dedicam durante a vida inteira a uma religio, defendem- na,

    pregam-na, fazem grandes investimentos na sua propagao, mas, ao chegar ao

    trmino da existncia, no conseguiram eliminar uma s de seu vasto rol de

    imperfeies. Morrem como nasceram, com o peso idntico de iniquidades.

    - Como poderei, em termos prticos, auxiliar os que me procuram nesse

    sentido, ento, amigo?

    - Ensine-lhes a prtica do Evangelho no lar, como lio bsica e fundamental.

    - E isso bastar?

    - O que importa no a prtica em si, mas os resultados que se obtm,

    tomando os ensinamentos como um guia seguro para o aperfeioamento ntimo.

    - H meses, adotamos esse hbito evanglico l em casa e todos participam.

    - As quartas-feiras, no ? Como que vo as reunies?

    - Maravilhosamente. Comeamos com uma orao inicial, simples, e, depois,

    algum abre ao acaso o nosso O Evangelho segundo o Espiritismo. Esteja certo, querido Samuel, que sempre nos vem a mensagem de que mais necessitamos.

  • - E assim , de praxe.

    - No incio, olhavamo-nos espantados, saboreando nossa estupefao. Agora,

    j nos acostumamos e fazemos nosso brinde de alegria por meio de sorrisos

    discretos. E conforme a leitura feita por um de ns, vamos recolhendo os

    ensinamentos de maneira pesarosa e, s vezes, por que no dizer...

    - ...envergonhados?

    - Isso. Envergonhados por no havermos enxergado h mais tempo aquela

    imperfeio to flagrante, que os amigos do plano espiritual precisam vir

    mostrar-nos com tanto carinho.

    - Tambm sinto o mesmo, Marcos. Os defeitos esto em ns, palpveis, at.

    Entretanto, s identificamos os dos nossos irmos.

    - uma das falhas da humanidade, no ? Mas voltemos ao que lhe contava.

    Depois da leitura, cada um de ns tece algumas consideraes sobre o assunto.

    Trocamos ideias, jamais contradizendo os opinadores, pois foi-me explicado que

    isso poderia fazer descer o padro vibratrio.

    - Muito certo. E fazem tambm outras leituras?

    - Lemos obras infantis que interessem s crianas.

    - timo. - E voc, o que me conta sobre suas reunies?

    - Bem, para incio de assunto, j sabe que minhas irms e minha me professam

    outra religio, no?

    - Sei.

    - Deixe-me contar-lhe, agora, a soluo que encontrei, com referncia ao

    Evangelho. Advertido de que somente obteria tranquilidade e paz em minha vida

    desde que abraasse a prtica do Evangelho no lar, de preferncia com a

    participao de toda a famlia, armei-me de coragem e procurei minha me e manas

    para o convite. Muito ressabiado, pois sabia da extrema fidelidade de minhas

    amadas criaturas aos dogmas professados, expliquei-lhes de que se tratava, tendo

    o cuidado de mostrar realmente a feio exclusivamente normativa da prtica, o

    que a faz totalmente ecumnica.

    - No declinou sequer o nome da Doutrina?

    - E nem poderia. Contava com uma conquista gradual, serenamente penetrando

    nos terrenos espritas.

    - E elas concordaram? - Desde que lhes afirmara tratar-se exclusivamente de leitura e estudo

    dos Evangelhos... contudo, na primeira reunio, mal nos sentamos mesa e, por um

    descuido meu, minha me puxou o volume para si e leu o ttulo do nosso livro-base...

    O Evangelho segundo o Espiritismo... Foi fatal. - Assustou-se?

    - Foi simplesmente assaltada de pnico! Ela, que costuma ser uma mulher

    at bastante comedida, foi tomada de uma crise violenta, jogando o volume ao

  • cho, sapateando sobre ele, e todas as seqiincias menores que costumam

    acompanhar um desencadeamento obsessivo momentneo.

    - Abandonou tudo?

    - Pode imaginar meu desalento? Profundamente abalado, procurei, no dia

    seguinte, a senhora que me atendera a primeira vez. Dela me veio o consolo e a

    orientao para realizar sozinho o Evangelho no lar.

    - E pode ser feito sem companheiros?

    - Sim. Adaptei-me logo, pois recebi, desde o incio, a necessria cobertura

    espiritual. Iniciava a prtica com uma prece em voz alta.

    - Como se mais.pessoas estivessem ouvindo?

    - Exato. E, realmente, h. Como temos hora marcada, os mentores

    requisitados para o acobertamento espiritual arrebanham todos os elementos do

    mundo de l que nos acompanham - entre perseguidos obsessores e

    simpatizantes gratuitos -, bem como os que frequentam a casa atrados pelos

    outros membros da famlia, e trazem-nos para ouvir.

    - Tambm fazia a leitura em voz alta?

    - Sim, e explicava tudo com detalhes, dando exemplos com fatos ocorridos

    na realidade. Como se desse aula a uma classe invisvel.

    - E era, de fato.

    - Por isso, esforava-me por explanaes bastante objetivas e at mesmo

    primrias. Aps a leitura e a explicao, nova prece agradecendo a presena dos

    mentores amigos e pedindo bnos a todos os necessitados.

    - Nunca falhou?

    - Creio que umas duas ou trs vezes, nesses anos todos, por absoluta

    impossibilidade de evit-lo.

    - E quando est viajando?

    - Realizo-o onde quer que esteja.

    - E sua vida, Samuel, apresentou melhoras com essa prtica?

    - No incio, tive grandes problemas.

    - No me diga! Obsessores?

    - Que passaram a atacar com furor redobrado as pessoas mais sensveis da

    famlia.

    - Meu Deus! Se fosse outro, sem f, teria abandonado tudo!

    - Disse-o bem, amigo. Te-lo-ia feito, se no houvesse recebido instrues a

    respeito, por parte daquela criatura abenoada que me preparara o esprito com

    antecedncia.

    - Sua instrutora?

    - Sim. Preveniu-me, alertando-me para essa costumeira reao.

    - Eu no senti isso.

    - Graas a Deus, Marcos. Nem todos tm os mesmos problemas, nem todos

    carregam atrs de si uma leva de inimigos desencarnados, como teria sido,

  • provavelmente, o meu caso.

    - Continue, continue. E o que fez?

    - Corri, desesperado, ao Centro Esprita, para aconselhar-me sobre o que

    deveria ser feito.

    - E o que lhe recomendaram?

    - Recomendaram-me a leitura de O Evangelho segundo o Espiritismo, em voz alta, em horas certas, seguida de uma orao em favor dos inimigos. Isso,

    diariamente.

    - O qu?

    - Sim, meu caro. Todos os dias.

    - E o Evangelho no lar?

    - Nada tem que ver com essa outra prtica. So totalmente independentes. A

    leitura funciona especificamente como limpeza psquica do ambiente domiciliar.

    - Que isso?

    - No necessria a limpeza cotidiana do lar? No nisso em que se

    empenham as donas de casa, cuidando de tudo, esfalfando-se em lavar, limpar,

    polir, lustrar?

    - Tambm voc resolveu lavar e lustrar os obsessores?

    - No brinque, meu caro. Foi o nico remdio para adquirir paz.

    - Normalizou-se tudo?

    - Aos poucos, os nimos foram sendo serenados, houve compreenso, mame e

    as manas passaram a respeitar minhas convices...

    - Contudo, no aderiram ainda, no ?

    - No tem importncia. Basta que no tragam polmica, prejudicando a

    vibrao da casa. Um dia todos estaremos irmanados na defesa de um s ideal de

    amor. E, at l, vamos ns fazendo o papel de sapadores, abrindo caminho.

    - Escute, Samuel, como essa orao pelos inimigos? No difcil atender aos

    objetivos visados?

    - Ser, se no for antecipada por uma perfeita ligao com os planos elevados.

    - Pode fazer virar o feitio contra o feiticeiro?

    - Em termos, Marcos. Como no me canso de repetir, preciso haver

    disciplina em toda prtica espiritual.

    - E para tanto...

    - Temos hora rigorosamente certa.

    - Para a cobertura espiritual?

    - Lgico. Depois, uma preparao mental perfeita, a necessria mentalizao

    do Cristo ou de algum smbolo especfico, com a consequente iluminao de ns

    prprios.

    - J sei. Aquela imagem interior de nosso perisprito banhado pela luz emanada

    das altas esferas, conforme...

    - ...explicao que lhe dei. .

  • - Depois?

    - Nesse ponto, j fizemos a ligao necessria. Basta, agora...

    - Ler a orao dos inimigos?

    - No. Ainda no. Nesse instante, fazemos a splica inicial com nossas prprias

    palavras, dirigida a Jesus e aos planos superiores, agradecendo os benefcios

    recebidos, pedindo sade e nossa melhora interior. Passaremos, ento, a ler em

    voz alta um trecho de O Evangelho segundo o Espiritismo. - preciso explicar, tambm?

    - No h necessidade, Marcos. Basta l-lo devagar, caprichando na dico,

    para ser bem compreendido. Depois de uma pgina ou pgina e meia, conforme se

    deseje, faremos uma ligeira prece ao Pai, pedindo-lhe que abenoe nossos inimigos,

    perdoando-lhes as faltas e oferecendo-lhes oportunidades redentoras. Um

    pai-nosso e, em seguida, a leitura (sempre em voz alta; no nos esqueamos de que,

    do incio ao fim, tudo dever ser falado e lido de maneira perfeitamente audvel)

    da prece por nossos inimigos.

    - Onde existe essa prece?

    - Faz parte da coletnea de oraes, nas ltimas pginas de O Evangelho segundo o Espiritism


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